“Um Sonho Possível” ignora racismo para contar superação

Sandra Bullock contracena com o ator Quinton Aaron em “Um Sonho Possível “(2009), de John Lee Hancock. A atriz levou o Oscar de melhor atriz pela atuação no filme.

SÃO PAULO (Reuters) – Há apenas um motivo para gerar curiosidade para se ver “Um Sonho Possível”: o longa rendeu à queridinha da América Sandra Bullock (“A Proposta”) o Oscar de melhor atriz, tirando a estatueta de Meryl Streep (“Julia & Julia”), Helen Mirren (“The Last Station”), Carey Mulligan (“Educação”) e Gabourey Sidibe (“Preciosa”) – todas merecendo muito mais o prêmio, em filmes bem melhores.

O prêmio de Sandra talvez tenha mais a ver com boa vontade e política de boa vizinhança do que qualidades cinematográficas. Afinal, ela trabalha em Hollywood há mais de 20 anos e nunca havia ganhado um prêmio importante. Em 2010, no entanto, fez a proeza de ganhar não apenas o Oscar, mas também um Framboesa de Ouro (o ?Oscar’ de pior filme) por “Maluca Paixão” – lançado no Brasil diretamente em DVD.

Em “Um Sonho Possível”, a atriz interpreta Leigh Anne Tuohy, uma decoradora mais preocupada com estampas de tapetes do que causas humanitárias. Isso até conhecer o afroamericano Michael Oher (Quinton Aaron, de “Rebobine, por Favor”), rapaz grandalhão que parece levar jeito para tornar-se um bom jogador de futebol americano e que, por isso, ganha uma bolsa de estudos numa escola classe A.

Mas ele não tem nem mesmo uma casa para morar e Leigh Anne, cujos filhos estudam na mesma escola, sensibiliza-se com isso, levando o rapaz para morar em sua casa, e fazer parte de sua família.

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Seu marido, interpretado pelo cantor country Tim McGraw (“Surpresas do Amor”), se encanta com o altruísmo de sua mulher e embarca na causa, dando casa, comida, roupa lavada e uma picape para o rapaz. Ah, eles também o adotam legalmente, mostrando que essa família do Mississipi é caridosa demais.

Baseado numa história real, daquelas cheias de improbabilidades e muita inspiração, o filme é dirigido e roteirizado John Lee Hancock, a partir de um livro escrito por Michael Lewis.
Apesar da boa vontade excessiva de “Um Sonho Possível”, pouca coisa – ou praticamente nada – se salva no filme. O diretor parece, na verdade, ter medo de colocar o dedo na ferida, de ir a fundo a temas que surgiriam naturalmente numa história como essa, como racismo no sul dos EUA e diferenças de classe. Pelo contrário.

Esse é um filme que quer agradar sem questionar ou fazer pensar, por isso tudo é muito arrumadinho e os problemas muito facilmente resolvidos. Oher, um garoto que literalmente tem apenas as roupas do corpo, não sofre nenhum tipo de discriminação na escola – nem pelas crianças ou pelos pais de alunos.

Com sua vontade de divertir, emocionar e conscientizar, “Um Sonho Possível” atira para todos os lados e, no final das contas, sua mensagem truncada é de que se cada um fizer a sua parte e for uma boa pessoa, este será um mundo melhor.

Nada mais reducionista e monocromático do que tentar vender essa visão de Estados Unidos – e porque não do mundo – tão simples que nem os filmes infantis lidam com estereótipos como esse há muito tempo. Aliás, se “Um Sonho Possível” fosse um filme infantil, o animal tagarela, melhor amigo do protagonista e alívio cômico seria o caçula da família, S. J. (Jae Head, de “Hancock”).

Ao final, com sua mensagem absurdamente paternalista, “Um Sonho Possível” mais parece um filme de propaganda de algum país colonialista mostrando como os cidadãos do Mississipi de bom coração são capazes de salvar uma pessoa da miséria e que, se todos fizerem como eles, o mundo seria um lugar melhor. Mas vale lembrar, por mundo, entenda-se um universo paralelo onde não existem conflitos ou qualquer mal-estar.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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